ENTREVISTA – “Amplificando as vozes das ruas em O Conto, A Selva e o Fim”

ENTREVISTA – “Amplificando as vozes das ruas em O Conto, A Selva e o Fim”

1) O disco nasceu parcialmente à partir de um projeto de financiamento coletivo no Catarse aliado a venda do primeiro disco (“O Velho e O Bar”) e as apresentações que tem feito nas ruas da cidade de São Paulo. Como foi esse desafio e o sucesso no final?

Quando pensamos em gravar o disco, o primeiro lugar que nos veio em mente foi o Estúdio Gerência. Moramos no prédio da Galeria de Arte Estúdio Lâmina e a Gerência faz parte desse lugar especial no coração do Vale do Anhangabaú. A Gerência fica na frente do apartamento do Matheus e em cima do apartamento do Chico, ou seja, estávamos gravando em casa. Conversamos com o Thomas Oliveira e Carolina Zingler e acertamos de ir pagando a gravação com a grana que conseguíamos com a vendo do nosso disco “O Velho e o Bar” nos shows da rua. Como vivemos da música, não poderíamos pagar a grana que recebíamos na rua totalmente ou acertar um valor fixo mensal. O fato de ir pagando apenas com a grana do CD nos deixou tranqüilos e demonstrou uma enorme amizade e voto de confiança do Estúdio Gerência conosco.
Para a masterização e prensagem resolvemos aderir a essa forma moderna com que artistas vem se conectando com o público: os financiamentos coletivos. Essa parte foi de uma vivência incrível onde tivemos contato com amigas e amigos que curtem a banda em várias partes do Brasil. Uma campanha exige muita dedicação pois demanda confiança no artista, na obra e no resultado do valor investido. Ao longo da jornada recebemos muita torcida e carinho, tanto das pessoas que contribuíram como das pessoas que não puderam doar dinheiro mas ajudaram na divulgação. Somos eternamente gratos pois esse nosso sonho só foi possível com o engajamento de centenas de pessoas. A arte é uma troca entre o público e o artista, nos sentimos lisonjeados por saber que existem tantas pessoas especiais que nos apóiam.

2) Vocês são do Rio Grande do Sul e tem vivido em São Paulo já a uns bons anos. Como foi a adaptação a cidade? Como enxergam a loucura da megalópole e como de certa forma esse cenário os inspira? Quais acreditam ser os piores problemas da cidade?

São Paulo nos recebeu bem. Ao chegar, nos sentimos acolhidos por uma galera muito bacana que havia se mudado para cá anteriormente: o pessoal do Estúdio Lâmina, a banda Mustache e os Apaches e uma gama de artistas que encontram aqui possibilidade de viver do seu trabalho. Morando no centro, não podemos fechar os olhos para tanta injustiça social que ocorre diariamente. Nos perguntamos como o estado mais rico do país tem tanta desigualdade onde uns andam de helicóptero enquanto outros dormem no chão. Felizmente chegamos em um momento em que a atividade artística ao ar livre foi regulamentaada: o prefeito Fernando Haddad, ao contrário de seu antecessor Gilberto Kassab, permitiu que houvesse arte nas ruas e praças da cidade. Dessa forma, tivemos a possibilidade de mostrar nosso trabalho em pontos da cidade e ter contato com um público de diferentes classes sócias, credos, cor ou opção sexual. Essa troca musical na rua possibilita contato com muita gente fazendo com que nos sintamos mais conectados com a cidade, com suas virtudes e seus defeitos e isso influência nas nossas composições e tem reflexo direto nesse novo disco. Tocar na rua faz com que tenhamos muitos amigos que lá habitam, isso gera muitas conversas, reflexões e aprendizados sobre os verdadeiros valores da vida. Acreditamos que se todos nós tivermos mais empatai, poderemos transformar a cidade para o melhor.

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3) Já pude acompanhar trechos das apresentações que fazem na Avenida Paulista. Como surgiu a iniciativa de tocar nas ruas? Como tem se organizado para isso? Após a iniciativa da Paulista aberta aos domingos, isso ajudou ainda mais a aproximação perante o público?

Os nossos amigos Mustache e os Apaches já tocavam na rua aqui, mas em um formato acústico. Nós resolvemos fazer na rua o formato plugado, como nos shows em festivais ou casas noturnas. Para isso contamos com o apoio de Samir Raoni que havia ganhado um projeto do ministério da Cultura e adquiriu um gerador de energia, PA e mesa de som. Essa estrutura possibilitou com que a cidade se abrisse para nós e fez com que pudéssemos levar nossas músicas para o espaço público. A rua tem sido a verdadeira fonte do nosso “ganha pão” visto que a remuneração para shows em casas noturnas é reduzido. A rua é a forma de nos mantermos ativos, trabalhando como qualquer pessoa, não somente aos finais de semana. No ano passado nós tocávamos na Av Paulista em um ou dois dias na semana. A iniciativa de abri-la para as pessoas deu vida e nova cor aquele espaço transformando a Avenida Paulista num ponto de encontro cultural e participativo.

4) Recentemente vocês realizaram o Festival Anhangabablues. De onde veio essa ideia e como foi organizar? Aliás, qual o maior desafio em produzir um festival independente na visão de vocês? Inclusive tem uma canção com o mesmo nome…seria ela o norte do disco?

Organizar o Anhangabablues, juntos com todas as bandas e parceiros que ajudaram, foi uma experiência curiosa. Pra começar, o Anhangabablues veio da parceria com o Lumineiro dos Mustache & Os Apaches. Reuníamos em frente ao mesmo prédio os instrumentos e equipamentos e mandávamos ver. Esse era o nome para o que estávamos fazendo e tornou cada vez mais viva a idéia de produzir um festivalzão com o máximo que pudesse de bandas que estavam ao nosso alcance, isto é, nossos amigos. Como encaixou em um feriado bacana, junto com a programação de Resistência do Lâmina, tudo foi favorável. O desafio era andar no meio daquele mundaréu de gente – o evento seria na rua, mas a ameaça de chuva nos fez migrar para dentro.

A canção existia fazia um tempo já e queríamos relatar sobre um sentimento que conseguimos resgatar sobre os moradores de rua especificamente no Anhangabaú. Moramos lá e conhecemos muitas pessoas que moram no calçadão – e algumas que não conseguimos até hoje nos relacionar. Resgatamos algum sentimento sobre uma mulher muito perturbada que aparece de vez em quando em nossas apresentações no centro. Ela, às vezes, anda semi-nua (ou até completamente), sem norte, buscando confusão por onde passa. E nada parece ser o que se parece. Lá dentro existe um ser humano, perdido, mas ainda é uma pessoa. É doloroso pensar nela, mas nada comparado a estar naqueles lençóis. Foi curioso tentar passar isso na música – as vozes desesperadas no final, os solos, o vocal, o ritmo – tudo parece ser a trilha sonora desse sentimento, em nossa visão.
E, além de outras influências, a letra chegou e logo, o refrão: ‘Anhangabablues, babe’. Esse é o ‘blues’ do Anhangabaú.

5) O álbum, O Conto, A Selva e o Fim, foi gravado na Gerência (localizada no Lâmina) com Tomás (Mustache e Os Apaches). Como foi a experiência?

Foi muito marcante. Tínhamos a mesma idéia na cabeça e tínhamos tudo o que precisávamos: parceria. Não só no estúdio, quanto afora: além das vendas do ‘O Velho e O Bar’ nas ruas, que ajudou a pagar o estúdio, conseguimos ganhar um projeto de financiamento coletivo (catarse.me/picanha3) para masterizar e fazer duas mil cópias. Isso nos fez acreditar ainda mais que era o caminho certo. Gravar no mesmo prédio em que moramos foi divertidíssimo: na frente da porta do Matheus e acima do apartamento do Chico. O processo pré-produção e gravação foi lento e com o coração – gravamos o disco em dupla, após muita resistência de troca de integrantes, isto é, estávamos loucos para gravar o que tínhamos feito aqui em São Paulo, desde então.
O Tomas se mostrou muito positivo com o disco desde o começo e nos ajudou muito em todo o processo. Sempre curioso, na intenção de somar algo maior no resultado. Foi muito especial. E não poderia mencionar a Carolina Zingler, que, além de estar produzindo dois discos em Santa Catarina na época, estava sempre conectada com a gravação, opinando e ajudando a idealizar.

A idéia de masterizar na fita era um desejo irrefreável que tínhamos – aquela leve atmosfera limpa, pura, de textura gostosa – e, graças à indicação da Carolina (que já havia masterizado nesse mesmo processo), conhecemos o Carlos Freitas. A sorte é que ele havia guardado uma fita de ótima qualidade, pois já não se fabrica mais. O resultado foi apaixonante.
O responsável pela captação foi o Tomas. A mixagem foi sempre um trabalho desempenhado por todos e foi tomando forma ao longo do tempo.
O disco saiu como queríamos: sem muita compressão e mais naturalidade, assim como nós gostamos. Nos orgulhamos muito de ter apostado nisso e, agora, vendo no que deu, tudo está mais claro para nós.

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6) Um outro detalhe é que o disco foi masterizado analogicamente e passado na fita de rolo. Sem Afinador digital e sem exageros de compressor. Quem foi responsável pela captação, mixagem e masterização? E porque da escolha pelo processo?

A idéia de masterizar na fita era um desejo irrefreável que tínhamos – aquela leve atmosfera limpa, pura, de textura gostosa – e, graças à indicação da Carolina (que já havia masterizado nesse mesmo processo), conhecemos o Carlos Freitas. A sorte é que ele havia guardado uma fita de ótima qualidade, pois já não se fabrica mais. O resultado foi apaixonante.
O responsável pela captação foi o Tomas. A mixagem foi sempre um trabalho desempenhado por todos e foi tomando forma ao longo do tempo.
O disco saiu como queríamos: sem muita compressão e mais naturalidade, assim como nós gostamos. Nos orgulhamos muito de ter apostado nisso e, agora, vendo no que deu, tudo está mais claro para nós.

7) Vocês estão lançando o segundo trabalho autoral. E ele tem uma narrativa e aspecto um tanto quanto rural. Da moda de viola, passando por letras do cotidiano da vida àrdua vida dos migrantes. O que influenciou e aguçou esse olhar?

Só um parênteses: “na verdade esse é nosso terceiro disco. O primeiro, autointitulado “Picanha de Chernobill”, era com uma outra formação, apenas o Chico está desde o começo. Com a música “Oh Be my Baby, my Baby Blue” recebemos o prêmio de melhor banda independente do Rio Grande do Sul no concurso da cerveja Polar e com isso a gravação do nosso segundo disco “O Velho e o Bar” já com a participação do Matheus. A música “Vá”, desse disco, foi recravado pela dupla “Chrystian e Ralf” no disco “Para sempre irmãos” com uma pegada bem rock’n’roll.”

A viola caipira, assim como os instrumentos acústicos refletem os sons que gostamos de escutar e sempre fizeram parte de nosso repertório. A Picanha de Chernobill tem como parte importante essa mistura do elétrico com o acústico criando, assim, um respiro e portas abertas para viajarmos musicalmente.
“O Conto, a Selva e o Fim” é nossa história, assim como é a das pessoas que nos cercam: a partir das nossas experiências resolvemos contar uma história, que se assemelha a nossa e a milhares de brasileiros: a mudança rumo a um polo econômico em busca de uma vida melhor. Nosso personagem deixa a mulher e a filha pequena e ruma à cidade grande em busca do sonho, lá ele encontra as injustiças sociais, vício, a violência policial, o racismo, um sistema corrompido mas sempre mantém a cabeça em pé e enfrenta os desafios com a consciência de quem luta por igualdade de condições nesse mundo em que se vê com os olhos e não com o coração. Onde está a verdade? Afinal o que ela é?

8) A sensação de controle, possessividade e machismo estão presentes no personagem da história do disco. Que ao menos para mim soou como uma história só desprendida e cortada em faixas, me corrija se estiver errado. De certa forma é uma maneira de condenar tal perfil de cidadão?

Acreditamos que a interpretação é livre, não existe regras para o que cada música representa para cada pessoa. Esses aspectos que tu descreveste se referem ao que o personagem sofre perante uma sociedade tão excludente. O machismo, na faixa “O Conto, a Selva e o Fim” se refere ao que a filha do personagem sofre ao querer ser livre como o pai, por que aos homens é permitido certas coisas e as mulheres não? Quanta falsa pregação nos é passada diariamente por aqueles que mais falham? quantos pregam a religião e vão de encontro e não ao encontro do que falam? quantos se utilizam da farda para oprimir e não fazer justiça? “E és tu o agente de Cristo que anda de arma na mão, e só crê perante o altar, e não sabe que somos irmãos e portanto deixamos voar”. Anhangabablues, aquelas pessoas que ninguém vê, que dorme no chão mas ainda tem asas e história, tem vida. “Quem lhe põe na parede e enfia a mão no seu bolso, manda abrir as pernas sem ao menos perguntar o seu nome” da Grab the Little Boy sobre como a polícia trata as pessoas pobres e humildes diferentemente do que faz com as pessoas ricas. A desigualdade racial através da música Tumbeiro, uma analogia a época da escravidão no Brasil e os reflexos perversos que se mantém nesse país infelizmente ainda racista. A exploração da terra e do trabalhador e os golpes de estado no Brasil na música “Ilha de Vera Cruz”. Todas essas músicas formam a história desse personagem, mas como falamos anteriormente, pode ser de milhares de pessoas trabalhadoras, humildes e honestas que migraram. “Do Pai ao Filho” e ‘Verdadeiro Encontro” relatam as reminiscências do passado, dos aprendizados paternos e maternos assim como a passagem do “bastão” para filha do personagem que vai voar com suas próprias asas na faixa título do álbum.
Não tivemos a pretensão de gravar um disco conceitual como fizeram com maestria “The Who” ou “Pink Floyd”. Nós notamos que através das músicas havia uma história, uma continuidade, um relato de coisas que vivenciados, de preconceitos e injustiças que estão presentes em nossa sociedade, na história do Brasil. A partir desse pressuposto, tentamos relatar a história de um personagem que deixa a mulher e a filha e busca o sonho que não se concretiza e acaba sendo preso injustamente; passado anos ele reencontra a filha em “Verdadeiro Encontro” ela segue sua vida e suas batalhas com o mesmo sonho de seu pai: ser livre.”Somos juntos esse temporal lavando o dia pro amanhã”.

9) Vocês fazem parte de algum coletivo de músicos ou selo independente? Como vem a importância desse tipo de vínculo dentro do independente?

Não fazemos parte de um selo, porém, fazemos parte de uma gama de artistas independentes atuais que produzem com o coração e muita batalha. Acreditamos em todas as formas de união entre as bandas e o público – outras alternativas de ligação entre os dois ainda surgem, dando alas à uma nova geração de artistas e de produção musical. É importantíssimo valorizar todos que fazem parte e, também, ajudar para que isso cresça.

10) Já que estamos na virada do ano. Quais discos acreditam que se destacaram nesse 2016?

Gostamos muito do Time is Monkey da banda “Mustache e os Apaches”, do disco “Durango” do Murilo Sá e Grande Elenco, Projeções do Pedro Pastoriz, “Tropicaos” do Molodoys e o “Mescalines” da dupla “Mescalines”. Sabemos que O Grande Grupo Viajante está em estúdio, 2017 promete muitos discos bons da cena independente, a galera está na ativa produzindo cada vez mais.

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11) A arte da capa remete a tempos difíceis. Se pudessem gravar um clipe, qual faixa seria e qual estética usariam?

“Venha logo e pegue esse trem” com alguém saindo do campo de carona atra de um caminhão com a cabeça erguida olhando o horizonte em busca da vida nova. “Anhangabablues” de algum dos nossos vizinhos que dormem na calçada e vêem e sentem a vida dura mais ainda buscam a felicidade mesmo sofrendo o que sofrem. “O Conto, a Selva e o Fim” mostrando as dificuldades que as mulheres passam nesse mundo sexista e opressor. Dava pra ser três? hehehehehehehhe

12) Qual mensagem queriam deixar ecoando na mento do ouvinte com o disco?

De que vale a pena correr atrás dos teus sonhos, de ter humildade e perseverança. Os sonhos nunca se concretizam da forma como imaginamos previamente: é uma caminhada com diferentes possibilidades e a união nos momentos mais difíceis é o que nos fará crescer e evoluir.

13) Quais artistas e bandas independentes nacionais acreditam que merecem atenção dos leitores do Hits Perdidos?

Mustache e os Apaches, Wallacy Willians, Murilo Sá e Grande Elenco, Mescalines, Pedro Pastoriz, Carolina Zingler, O Grande Grupo Viajante, Molodoys, Nicolas não tem Banda, Cattarse, Os Vespas, Mar de Marte.

14) Vocês já devem ter cansados de responder esta mas Porque Picanha de Chernobil? Tem alguma história por trás?

Chernobill é o mundo, é como os seres humanos estão tratando a si e ao planeta terra por isso a alusão ao acidente nuclear de Chernobyl na Ucrânia em 1986. Picanha porque nem tudo está ruim, tem coisas boas rolando, é só prestar atenção.

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